JUNHO – 18/2026

PARQUE NACIONAL DE PACAÁS NOVOS: EXPEDIÇÕES ORNITOLÓGICAS, POVOS INDÍGENAS E PERSPECTIVAS PARA O BIRDWATCHING EM RONDÔNIA

O Parque Nacional de Pacaás Novos: diversidade ecológica e relevância estratégica

No coração da Amazônia Rondoniense, um novo movimento começou a ganhar asas — e ele já nasce forte, inspirador e transformador, fortalecendo o birdwatching na Amazônia e a conexão entre pessoas e natureza.

Mais do que relatar uma expedição científica inédita, este artigo busca contextualizar seus resultados e refletir sobre suas implicações para a conservação, a pesquisa e as perspectivas futuras do birdwatching no Parque Nacional de Pacaás Novos.

Região do Pico do Tracoá, ponto mais elevado de Rondônia, onde foram realizados os levantamentos ornitológicos em ambientes de altitude. Acervo: ICMBio.

 

O Parque Nacional de Pacaás Novos (PNPN) é uma das unidades de conservação mais complexas e menos estudadas da Amazônia brasileira. Criado em 1979, protege uma extensa área que reúne formações florestais, savânicas e ambientes de altitude, compondo um mosaico ecológico de alta relevância para a conservação da biodiversidade.

Inserido em uma região de grande importância socioambiental, o parque apresenta áreas de interface e sobreposição territorial com a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, onde vivem diferentes povos indígenas, configurando um território de gestão complexa e estratégica para a integração entre conservação, uso público e direitos indígenas.

Esse contexto confere à unidade um caráter singular, no qual a conservação da biodiversidade está diretamente relacionada à presença, ao uso tradicional do território e aos modos de vida desses povos. Do ponto de vista ecológico, o gradiente altitudinal é um dos principais fatores estruturantes da paisagem. O Pico do Tracoá, com mais de 1.100 metros de altitude, representa o ponto mais elevado do estado de Rondônia, criando condições ambientais particulares que influenciam clima, vegetação, hidrografia e composição faunística.

Vista geral sobre o acesso à parte alta do PNPN e instalação de acampamento base em área remota do parque evidenciando as condições extremas de campo da expedição. Fotos: Glauko Corrêa.

Uma expedição inédita: dados primários na parte mais alta de Rondônia

Entre os dias 28 de maio e 4 de junho de 2025, o parque recebeu uma expedição científica ornitológica inédita, realizada na região do Pico do Tracoá — a chamada “parte alta” do parque. O ineditismo não se limita ao acesso geográfico. Até então, o conhecimento sobre a avifauna da unidade era fragmentado e pouco estruturado em termos de dados primários. A expedição também se destacou pela diversidade de profissionais envolvidos. Além de servidores do ICMBio e da Funai, participaram biólogos, ecólogos, ornitólogos, especialistas em monitoramento da biodiversidade, representantes de instituições de pesquisa e profissionais ligados ao turismo de observação de aves. Essa composição multidisciplinar permitiu integrar diferentes abordagens científicas e perspectivas de análise sobre os ambientes investigados, ampliando o alcance dos resultados produzidos em campo.

O plano de manejo de 2009 não apresenta levantamentos ornitológicos sistemáticos realizados dentro do parque, baseando-se majoritariamente em dados secundários provenientes de áreas adjacentes — especialmente da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau — utilizados por extrapolação. Os registros diretos disponíveis eram pontuais, oriundos principalmente de observadores de aves que atuaram na área em contextos profissionais distintos, além de iniciativas como o Programa Monitora. Nesse contexto, a expedição marca uma inflexão importante: passa-se a contar com dados primários obtidos de forma estruturada, especialmente em ambientes de altitude até então praticamente ausentes na literatura ornitológica da unidade.

Alguns dos ambientes amostrados durante a expedição: campo rupestre, florestas de igarapés com epífitas e áreas com histórico de queimadas. Fotos: Glauko Corrêa

Um dos aspectos mais relevantes da expedição está relacionado aos ambientes investigados. Diferentemente das florestas de terras baixas — amplamente reconhecidas pela elevada riqueza de espécies — os ambientes de topo de montanha na Amazônia, em geral, não são considerados áreas de alta diversidade de aves. Esses sistemas tendem a abrigar comunidades mais restritas, o que torna os registros obtidos ainda mais relevantes do ponto de vista ecológico.

Durante os trabalhos, foram amostrados diferentes tipos de ambientes, incluindo campinas rupestres arbóreo-arbustivas, florestas de igarapés com elevada presença de epífitas e áreas afetadas por queimadas de incêndios passados. Essa diversidade de ambientes contribui para uma leitura mais refinada da ecologia local e amplia o entendimento sobre a distribuição das espécies.

Métodos de campo: como os dados foram produzidos

Aplicação de métodos de campo, incluindo uso de redes de neblina (mist nets), registros em trilha e integração com coleta científica e preparo de material de referência. Fotos: Glauko Corrêa

As campanhas combinaram diferentes abordagens de amostragem, integrando métodos clássicos da ornitologia com práticas amplamente utilizadas no birdwatching técnico. Entre os principais procedimentos empregados, destacam-se:

  • caminhadas sistemáticas em trilhas e áreas abertas;
  • registros visuais e auditivos (identificação por vocalização);
  • uso de gravações sonoras para confirmação de espécies;
  • documentação fotográfica;
  • georreferenciamento dos pontos de registro;
  • captura com uso de redes de neblina (mist nets), permitindo o registro de espécies de sub-bosque com baixa detectabilidade, além da obtenção de dados biométricos;
  • integração com atividades de coleta científica autorizada, incluindo preparo de espécimes por técnicas de taxidermia para fins de referência científica.

 

Essa combinação metodológica permitiu ampliar a detectabilidade das espécies em diferentes ambientes e condições climáticas, além de gerar uma base de dados mais consistente para análises posteriores.

Gravações sonoras para confirmação de espécies em trilhas e áreas abertas. Foto: Glauko Corrêa

Ciência em rede: gestão compartilhada e construção em campo

Equipe transdisciplinar da primeira expedição em campo, incluindo ICMBio, Funai, pesquisadores, enfermeiro, povos indígenas e representantes do trade do turismo de observação de aves. Foto: Glauko Corrêa

 

A expedição reuniu servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI, brigadistas, pesquisadores, representantes indígenas das etnias Jupaú, Amondawa, Oro Win e Cabixi, e integrantes do trade do turismo de observação de aves.

A atuação conjunta permitiu integrar diferentes competências, incluindo coordenação institucional, levantamento científico, leitura territorial e avaliação do potencial turístico. A expedição foi um marco por ter contado com gestão compartilhada entre ICMBio, Funai e povos indígenas, além de instituições científicas e representantes do trade turístico de observação de aves, fortalecendo o protagonismo indígena e garantindo que a produção de conhecimento ocorresse em diálogo com os saberes tradicionais.

Esse arranjo colaborativo não apenas qualifica a geração de dados em campo, mas também estabelece as bases técnicas e institucionais necessárias para o planejamento do uso público em áreas de alta complexidade territorial, conectando diretamente ciência, gestão e possibilidades futuras de desenvolvimento do turismo.

Resultados: clima, altitude e ampliação do conhecimento

Registro de espécies durante atividades de observação na expedição. Beija-flor-de-cabeça-azul (Chrysuronia rondoniae), Tem-tem-de-dragona-vermelha (Tachyphonus phoenicius) e Piuí-boreal (Contopus cooperi). Fotos: Glauko Corrêa

Entre os registros, destaca-se o Beija-flor-verde-e-branco – Elliotomyia chionogaster, cuja distribuição advém da região do altiplano peruano, e sua ocorrência em ambiente amazônico de altitude apresenta relevância biogeográfica e migratória sazonal.

O migratório Beija-flor-verde-e-branco, cuja distribuição advém da região do altiplano peruano, capturado em uma das baterias de redes de neblina. Fotos: Glauko Corrêa

Segunda expedição (novembro de 2025): validação e refinamento dos dados

Alinhamento técnico das equipes, na base Candeias – PNPN, em 09/11/2025. Foto: Glauko Corrêa

 

Em novembro de 2025, a 2ª expedição foi realizada objetivando revisitar os pontos amostrados e aprofundar a interpretação dos dados já obtidos. Diferentemente da primeira campanha, essa etapa ocorreu sob condições climáticas mais estáveis, sem a influência da friagem e com predominância de tempo parcialmente nublado.

Parte equipe transdisciplinar da segunda expedição em campo, incluindo ICMBio, pesquisadores e representante do trade do turismo de observação de aves. Foto: Glauko Corrêa

 

A repetição dos pontos de amostragem permitiu comparações diretas e contribuiu para avaliar possíveis efeitos climáticos sobre a atividade e detectabilidade das aves. Os dados encontram-se em processo de sistematização e consolidação, integrando registros observacionais e informações provenientes das coletas científicas realizadas em campo.

Além de validar parte dos registros obtidos na primeira campanha, a segunda expedição ampliou a base de informações científicas disponíveis para a região ao integrar observações de campo, registros documentais e materiais provenientes das coletas científicas realizadas durante as duas etapas da pesquisa. Esse esforço permitirá análises mais robustas sobre a composição da avifauna local e sobre possíveis variações associadas às condições ambientais observadas em cada período amostral.

Território indígena como elemento estruturante

A participação de representantes das etnias Jupaú, Amondawa, Oro Win e Cabixi foi central para o desenvolvimento das atividades. Vinculados à Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, esses grupos contribuíram com conhecimento territorial, orientação em campo e leitura de paisagem. Esse envolvimento evidencia um modelo em que a produção científica ocorre de forma compartilhada, com protagonismo indígena e integração entre diferentes formas de conhecimento.

Participação indígena nas atividades de campo, contribuindo com conhecimento territorial, orientação e aprendizado científico. Foto: Glauko Corrêa

Turismo de Base Comunitária: potencial e construção inicial

As expedições evidenciaram o potencial para o desenvolvimento do Turismo de Base Comunitária – TBC, na região. O interesse das comunidades indígenas em estruturar atividades de observação de aves aponta para a possibilidade de um modelo que combine conservação ambiental, geração de renda e valorização cultural.

Entretanto, a definição de modelos, formatos de visitação e eventuais oportunidades futuras deverá ocorrer a partir das decisões e prioridades estabelecidas pelas próprias comunidades, em consonância com os instrumentos de gestão e com os processos de consulta previstos na legislação.

Esse movimento não ocorre de forma isolada, mas se insere em um contexto mais amplo de ordenamento territorial e normativo, especialmente em áreas de sobreposição entre unidades de conservação e terras indígenas, como no caso do PNPN e da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau.

Nesse sentido, o turismo de base comunitária passa a ser compreendido não apenas como uma oportunidade, mas como uma estratégia alinhada às diretrizes institucionais vigentes, ao protagonismo indígena e à construção de modelos sustentáveis de uso público. O birdwatching, nesse contexto, se destaca como uma atividade compatível com o território, tanto pelo baixo impacto quanto pela valorização do conhecimento local, dialogando diretamente com os instrumentos legais e com as bases técnicas geradas pelas expedições.

Birdwatching e leitura aplicada do território

A presença de representantes do trade de turismo de observação de aves, entre eles o ornitólogo Glauko Corrêa, contribuiu para uma avaliação prática do potencial da área, tanto da parte baixa quanto da parte alta do PNPN. Aspectos como atratividade das espécies, logística, experiência em campo e viabilidade de roteiros foram analisados sob a perspectiva do uso turístico, complementando os dados científicos.

Marco legal e ordenamento do turismo: da norma à prática no território

A realização das expedições ocorre em um contexto de avanços no ordenamento do turismo em áreas protegidas, especialmente em territórios que apresentam sobreposição ou interface entre unidades de conservação e terras indígenas, como é o caso do PNPN e da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau.

A Instrução Normativa nº 03/2015 da Fundação Nacional dos Povos Indígenas estabelece as bases para a visitação turística em terras indígenas, focando no protagonismo das comunidades, consulta prévia e na necessidade de planejamento por meio de planos de visitação.

Em 2025, a Instrução Normativa Conjunta Funai–Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade amplia esse arcabouço ao tratar da integração entre terras indígenas e unidades de conservação, definindo diretrizes para o planejamento conjunto e a gestão compartilhada da visitação. 

Nesse contexto, a sobreposição territorial deixa de ser apenas uma característica geográfica e passa a representar um elemento estruturante para o ordenamento do uso público, exigindo articulação institucional, participação indígena e alinhamento com instrumentos legais específicos.

As expedições, por sua vez, assumem um papel estratégico ao gerar dados técnicos fundamentais para subsidiar a implementação do turismo de forma legal, planejada e alinhada às diretrizes institucionais. Essa base técnico-científica, aliada ao arcabouço normativo vigente, cria condições concretas para o desenvolvimento do turismo de base comunitária, no qual o protagonismo indígena, a valorização cultural e a conservação ambiental se integram de forma estruturada — tendo o birdwatching como uma das principais atividades potenciais nesse processo.

Cabe destacar que o potencial identificado pelas expedições não deve ser confundido com a existência de atividades turísticas já estruturadas ou autorizadas. A implementação de iniciativas de visitação em territórios com as características do Parque Nacional de Pacaás Novos e da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau depende de processos técnicos, institucionais e comunitários que exigem tempo, planejamento e construção coletiva. O respeito a essas etapas é fundamental para garantir segurança jurídica, protagonismo indígena e sustentabilidade de longo prazo para qualquer modelo de turismo que venha a ser desenvolvido na região.

Uma nova fronteira para o birdwatching na Amazônia

O PNPN passa a se consolidar como uma das áreas mais promissoras para o desenvolvimento futuro do birdwatching na Amazônia brasileira. A combinação entre ambientes de altitude, geração recente de dados primários, ampliação da lista de espécies, participação indígena e respaldo legal cria condições favoráveis para o desenvolvimento estruturado da atividade.

Síntese: avanços e perspectivas

As expedições realizadas em 2025 representam um avanço significativo no conhecimento da avifauna do Parque Nacional de Pacaás Novos. A transição de um cenário baseado em dados dispersos, registros pontuais e extrapolações para um contexto sustentado por levantamentos de campo estruturados marca uma mudança relevante na base de conhecimento disponível sobre uma das áreas protegidas mais importantes e menos estudadas de Rondônia.

Ao mesmo tempo, a articulação entre ciência em campo, governança compartilhada, ordenamento legal e protagonismo indígena estabelece fundamentos sólidos para a construção de novas oportunidades de pesquisa, conservação e uso público qualificado do território. Os resultados já obtidos demonstram o valor estratégico de iniciativas que integrem pesquisa científica, conservação da biodiversidade e participação social na construção de novos caminhos para o conhecimento e a valorização da Amazônia rondoniense.

Equipe de ornitólogos da primeira expedição científica ornitológica do PNPN. Foto: Glauko Corrêa

 

A expedição contou com o apoio essencial do ICMBio, da Funai, dos povos indígenas Jupaú, Amondawa, Oro Win e Cabixi, além de pesquisadores, instituições científicas e representantes do turismo de observação de aves. A todos, nossa gratidão e reconhecimento pelo compromisso com a ciência, a conservação da biodiversidade e a construção coletiva de perspectivas sustentáveis para a região.

Mais do que ampliar o conhecimento sobre a avifauna do parque, essas expedições demonstram como ciência, conservação, diálogo intercultural e participação social podem atuar de forma integrada na construção de futuros possíveis para a Amazônia rondoniense — fortalecendo as bases para que conhecimento, território e biodiversidade caminhem juntos na valorização de um dos patrimônios naturais mais singulares do estado de Rondônia.

Autor: Glauko Corrêa 

Amazônida, biólogo e ornitólogo, fundador e diretor da Proaves Rondoni Birding. Dedica-se às Aves, birdwatching e cultura na Amazônia, unindo pesquisa, conservação e o prazer de compartilhar a beleza da natureza.

Instagram: @glaukorrea_birding  |  @proavesrondoni

Direitos autorais: © Proaves Rondoni Birding | Autor: Glauko Corrêa

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